Sindicato dos Trabalhadores na Indústria Cinematográfica e do Audiovisual dos Estados de São Paulo, Paraná, Rio Grande do Sul, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Goiás, Tocantins e Distrito Federal.

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Notícias
publicado em 19/04/2018 - Notícias

TÁ FALTANDO ELE

 

   Pedro Pablo Lazzarini
    1943 - 2017


Hoje, 19 de abril, faz um ano que Lazzarini, também conhecido como "o Gordo", foi desta para melhor. Sua morte, em 19 de abril de 2017, aconteceu às vésperas da posse da nova diretoria do Sindicato, e foi muito traumática para os novos diretores e os funcionários da entidade.

Lazza. Era como gostava de ser chamado. Era diretor de fotografia e foi fundador, presidente e secretário geral do Sindcine. Tinha sempre uma história divertida para contar sobre suas muitas filmagens, conselhos para lidar com os conflitos, trabalhistas ou políticos.

O Sindcine deve muito a Lazzarini. Ele foi um dos idealizadores e fundadores do Sindcine, posteriormente presidiu o sindicato por dois mandatos e era secretário geral na diretoria recém-eleita no início de 2017. Lazzarini era a pessoa que mantinha o relacionamento com as entidades sindicais e organizações em toda a América Latina.

camiseta homenagem Lazza

Membros de entidades sindicais de atores e técnicos do setor audiovisual de toda América Latina assinaram uma camiseta em homenagem a Pedro Lazzarini, em novembro do ano passado; o seminário foi batizado com seu nome

Começou sua carreira como assistente de direção na Argentina e realizou o primeiro longa-metragem como diretor de fotografia em 1970. Após um período como DF em publicidade na Argentina, foi contratado pela Zodíaco Filmes no Rio de Janeiro em 1972 e estabeleceu-se definitivamente no Brasil. Pouco tempo depois, mudou-se para São Paulo, onde passou a trabalhar principalmente em filmes publicitários pela produtora Espiral.

 Realizou mais de 1.500 comerciais, dos quais vários receberam prêmio Melhor Fotografia do Prêmio Colunistas, além dos longas “Fuscão Preto”, “Jogo Duro”, “O Príncipe” e “Boleiros 2”. Era membro do Conselho Superior de Cinema, e membro efetivo do Conselho de Comunicação Social do Senado.

Mas essas são informações burocráticas, que não dizem quem era ele realmente. O Lazza era uma figura. Sempre alegre, brincalhão, generoso, divertido, irreverente, sentimental, apaixonado. E mesmo assim era um dos melhores diretores de fotografia do País, convidado a trabalhar com os melhores diretores de publicidade. Conversamos com algumas das pessoas que conviveram com ele para ouvir, deles próprios, como era o Lazza.

ADRIAN TEIJIDO   Diretor de fotografia

Trabalhei com o Lazzarini nos anos 1980, na Espiral Filmes, como segundo assistente, quando o primeiro assistente dele era o Mazzola (Heleno). Na época a Espiral tinha várias equipes e havia gravações quase todo adrian teijidodia. Comecei a trabalhar na Espiral porque ele me aceitou como estagiário no Departamento de Câmera, que ele chefiava. O Lazza era uma das pessoas mais divertidas  que conheci na vida, era como um tio e me ensinou muito. Ele era muito generoso com o seu conhecimento de fotografia e me ajudou a escolher entre a fotografia still e o cinema, ao qual me dediquei. Era amigo do meu pai, o Tito Teijido, talvez por ambos serem argentinos, também sou, mas um argentino "de araque", porque vim para o Brasil com quatro anos. Só tenho boas lembranças do Lazza.



Equipe de filmagem "Fuscão Preto": Monique Lafond, Pedro Lazzarini, Jeremias Moreira, MIrela Zunino, Giula Hungaro, Ulisses Malta

MAZZOLA HELENO   Diretor de fotografia

É até difícil falar do Lazza, é muita emoção. Éramos uma equipe na Espiral, o Lazza, o Ulisses (Malta) e eu. Mas era muito mais do que isso, era uma amizade muito grande, a gente estava sempre junto, íamos ao Pacaembu ver os jogos do Coríntians, mesmo argentino ele era mais corintiano do que eu! Eu ia com a minha namorada no sítio dele, conheci a mãe dele, dona Tula, era como uma grande família.
Apesar de ser um sujeito grandão, ele exalava sensibilidade, era um cara simples, puro, sem maldade. E um fotógrafo com grande cohecimento técnico, que gostava de fotografar com pouca luz. Hoje sou diretor de fotografia, e um dos caras que mais me inspirou foi o Lazza. Foram muitas histórias com ele de uma época muito boa.

Pedro Lazzarini, Phillipe Borne, Einhart Jacome da Paz

ULISSES MALTA Gaffer

Comecei a conviver com o Lazza por volta de 1979, eu era técnico de iluminação e tinha trabalhado no cinema da Boca do Lixo em São Paulo. A Espiral Filmes tinha vários diretores de fotografia, eu tinha um jeito de trabalhar que agradou ao Lazza e ele me acolheu para formarmos uma equipe, mais o Mazzola. Graças a esse apadrinhamento eu aprendi muito, e filmamos para as maiores agências da época, como DPZ, McCann, Thompson etc.

Era um cara extremamente extrovertido, ulisses maltaengraçado e generoso, principalmente generoso. O Lazza simplesmente ajudava quem estivesse precisando, com dinheiro ou como pudesse, sem esperar nada em troca. Também adorava a "Democracia Corintiana", do Sócrates e do Casagrande. E não tinha vaidade nenhuma, por isso o trabalho fluía. A gente sugeria uma coisa, ele aceitava, se não desse certo mudava, sem problema nenhum.

Não me surpreendeu quando ele foi para o Sindicato, o Lazza sempre foi um cara que defendeu sua equipe, assim como compartilhava os créditos e elogios que recebia conosco, fosse em que situação fosse.

SONIA SANTANA Produtora e Presidente do Sindcine

Conheci o Lazzarini por volta de 1976 ou 1977, ele tinha acabado de se mudar do Rio de Janeiro para São Paulo. Eu e a mulher dele na época, Célia, trabalhávamos juntas. O Lazzarini tinha vindo ao Brasil trabalhar como diretor de fotografia pela produtora Zodíaco.

O curioso é que a certa altura ele percebeu que um dos motivos dele estar no Brasil é que na Argentina pagava-se menos que aqui, portanto ele estava prejudicando os brasileiros, aí teve a iniciativa de criar uma associação de técnicos de cinema para lutarmos por nossos direitos. Essa associação nasceu absolutamente sem dinheiro e ele ajudou a bancar.

LazzariniNa época da fundação do Sindicato o Lazza não participava muito, porque sua vida profissional era muito intensa. Só depois de uma temporada em Portugal, ao retornar ao Brasil, nos anos 1990, ele passou a ser mais atuante.

E durante 2016 e 2017 ele nos ajudou a fazer essa transição, com eleições absolutamente transparentes, para esta nova fase do Sindicato, novamente nas mãos dos técnicos. Faço esta gestão sempre lembrando dele, seguindo a direção que ele mostrou, e graças a isso estamos reconquistando a confiança dos técnicos de cinema. Já triplicamos o número de associados e continuamos crescendo. Toda esta gestão é uma forma de homenageá-lo, de realizar o que ele sonhou.

As coisas dele ainda estão aqui. Os crachás, as bandeiras do Coríntians, o som da sua risada. Divertidíssimo, ele sempre dizia: "Jo soy baiano!" Adorava o Sol e a praia. Lamentavelmente, nos deixou muito cedo. Mas só um argentino corintiano escolhe o Dia do Índio para partir. Como sempre, com um gracejo.

TONY DE SOUSA Diretor cinematográfico e ex-presidente do Sindcine

Sempre tive militância política e uma das minhas incumbências pelo Partidão (PCB) era fazer com que os técnicos de cinema estivessem em um Sindicato. Na época, anos 1970, eu trabalhava como assistente no cinema da Boca do Lixo, e era um esquema bastante precário, se comparado ao pessoal da publicidade. Eu e alguns colegas da Boca nos associamos ao sindicato dos artistas, mas éramos minoria e nunca éramos ouvidos. Nessa época o Lazzarini apareceu no sindicato, e ele era um cara de publicidade, muito falante, que colocava suas opiniões. Nos aproximamos dele para formarmos nossa própria associação.

O Lazza foi o cara certo na hora certa, porque devido ao plano Collor o cinema da Boca praticamente havia desaparecido e todos os técnicos estavam na publicidade. Quando fundamos o Sindcine, o pessoal de publicidade veio em peso, porque o Lazza nos dava credibilidade. Ele era um cara bastante atarefado, só vinha nas raras folgas que tinha. O Lazza só passou a atuar mesmo depois que retornou de uma temporada de quatro ou cinco anos em Portugal, por volta de 2004. Assumiu um cargo na Diretoria, ao passo que eu fui me afastando, devido à minha carreira acadêmica.

Mas afora essa trajetória sindical, o Lazza foi como um irmão mais velho pra mim, uma pessoa generosíssima, que me ajudou de toda forma. Era aquela figura, sempre muito alegre, onde ele estava era uma festa.

UGO GIORGETTI Diretor cinematográfico

O Lazzarini era um fotógrafo muito acima da média, além de um excelente companheiro e um amigão. Nos conhecemos quando ele veio do Rio de Janeiro para São Paulo, no início dos anos 1970, e acabamos trabalhando juntos em publicidade. Posteriormente eu o convidei a fotografar o meu primeiro longa-metragem "Jogo Duro", e ele aceitou. Fizemos um grande filme juntos, ganhamos reconhecimento, nenhum dinheiro e tudo bem. Era um grande amigo e colega, aquela pessoa folclórica, que ocupava todos os espaços e conquistava todo mundo.

claqueteMas chamo atenção para isso, o grande conhecimento técnico que ele tinha, que às vezes ficava ofuscado pelo personagem exuberante que ele era. O Lazza conhecia a regra, sabia o manual, mas também seguia a intuição. Não só eu, como outras pessoas consideram que o Lazzarini fez a melhor fotografia da Bruna Lombardi no cinema, no meu filme "O Príncipe". Mas devido a toda essa alegria, muita gente não o levava a sério, não lhe dava o valor que ele tinha como grande profissional que era, um fotógrafo extraordinário.

KITY FÉO Assistente de direção

Conheci o Lazzarini por meio do Ugo Giorgetti, como assistente de direção no filme
"Boleiros 2", que o Lazza e o Rodolfo Sanchez fotografaram juntos. Ele era uma pessoa muito extrovertida que fazia o set ficar um lugar delicioso de se trabalhar. Era, antes de tudo, um boa praça, que amava o que fazia, estava sempre sorrindo. Um set de filmagem é como um microcosmo, um retrato de como é a vida real, e ele se sentia completamente em casa nesse ambiente e deixava todos à vontade.

Apesar de termos trabalhado só essa vez juntos, sentimos uma grande empatia e a amizade ficou. Falávamos sempre, ele era um sujeito muito carinhoso, de um coração enorme.

RODOLFO SANCHEZ Diretor de fotografia

rodolfo sanchezA brincadeira que eu o Lazza fazíamos é que nóst tínhamos vindo da Argentina para salvar o Brasil. Era brincadeira, claro, porque tinha muita gente que sabia fotografar aqui, mas era a nossa piada. Conversávamos muito, sobre cinema, sobre técnica, sobre as associações, mas ficamos mais próximos realmente graças ao Giorgetti, quando fotografamos, os dois juntos, o filme "Boleiros 2", eu fazendo uma parte da narrativa, ele a outra.

Ele pensava como eu, que o fotógrafo não deve usar sempre os mesmos equipamentos, mas sim experimentar e fazer uma fotografia adequada a cada filme. Eu sabia do grau de profissionalismo do "Gordo", como a gente o chamava, mas ser profissional não o impedia de ser muito alegre, brincava o tempo todo e para aprontar não respeitava hierarquias.

Acho que a inclinação pelo movimento sindical vinha de casa. As coisas que seu avô tinha contado para ele sobre os sindicatos, o meu tinha contado a mim também, então tínhamos esse passado em comum, argentino, e essa tradição de organização dos trabalhadores, que ele trouxe para cá. Sinto muita saudade do Gordo.

FERNANDO MENUDO Primeiro assistente de câmera

Tive contato com o Lazza de duas formas, como assistente de câmera, principalmente nos anos 1980, no Rio de Janeiro, e mais tarde como técnico de cinema que tentava fundar uma associação, que hoje é a ACASP (Assistentes de Câmera Associados de SP).
Tony de Sousa, Lazza, Nivaldo Honório, Sonia Santana, Claudio Leone e Víctor Lopes
O Lazza era um diretor de fotografia que deixava a equipe muito à vontade, brincava e fazia "pegadinhas", muito moleque e boa praça. E era um dos diretores "top", daqueles que as agências fazem cronograma segundo sua disponibilidade, porque querem fotografar com ele. Depois de trabalhar com o Lazza, me tornei seu admirador.
Quando iniciamos a ACASP, sempre contamos com os conselhos do Lazza para nos ajudar a lidar com as negociações difíceis, ele era um cara ponderado e sabia como o sindicato patronal ia reagir às nossas reivindicações. Lembro que ele dizia: "Razão vocês têm, mas tem um jeito certo de fazer as coisas". Sempre acolheu e defendeu os técnicos, foi muito com o apoio dele que conseguimos fundar e manter a ACASP.

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